O Gartner chama de “Tsunami Digital”. Alguns chamam de “Segunda Revolução Industrial”. Denominações à parte, está muito claro para todos, principalmente para aqueles que atuam no setor de TI, que estamos vivendo uma nova era tecnológica, com enormes impactos sociais, econômicos e culturais.

Essa nova era se desdobra a uma incrível velocidade. Previsões sobre a difusão das tecnologias móveis, a enorme presença das redes sociais e a capacidade crescente de se analisar e tirar conclusões a partir de enormes volumes de dados se tornaram realidade tão rápido, que parecem que sempre foram uma verdade inquestionável. E as novas tendências, tais como impressão 3D, máquinas inteligentes e assistentes que desempenham tarefas cognitivas de alto desempenho não causam nenhum espanto.

Mas quais são as consequências disso tudo para as organizações e forças de trabalho que irão conviver com essa nova realidade? Que terão de se adaptar, é certo. Mas como, exatamente?

É complexo responder essa pergunta, pois um dos exercícios mais difíceis que existe é o exercício de futurologia. É possível, no entanto, entender as grandes forças que estão por trás dessa transformação e, a partir desse entendimento, desenvolver as principais habilidades – sejam elas organizacionais ou pessoais – para lidar com a nova realidade.

O brilhante livro “The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies”* – leitura obrigatória – traz uma teoria muito consistente sobre quais são essas forças e porque elas estão em curso nesse exato momento.

Aliás, essa é uma questão muito interessante: por que essas forças estão em curso agora e não há dez anos atrás? Já tínhamos avançado muito do ponto de vista tecnológico há dez anos atrás, mas cientistas de renome declararam – com estudos muito bem embasados – que havia sérias limitações em relação a onde computadores e máquinas poderiam chegar. Por exemplo: acreditava-se que nunca seria possível construir um veículo autônomo, dada a enorme complexidade de sinais, das mais diversas naturezas, que deveriam ser tratados ao mesmo tempo. E as competições de veículos autônomos, nessa época, eram marcadas por resultados totalmente medíocres!

Dez anos depois dessas declarações, assistimos, sem espanto, a Google construir um veículo completamente autônomo. Imaginamos, com naturalidade, que, no futuro haverá apenas carros autônomos e que dirigir será apenas um hobby para os aficionados!

Para entender porque isso está acontecendo hoje, é preciso entender três grandes forças transformadoras, que juntas se multiplicam e geram um ciclo virtuoso que parece inesgotável. Essas forças não são desconhecidas ou misteriosas, mas são completamente subestimadasentendê-las agora, assim como seu poder transformativo, muda completamente a nossa visão da realidade.

A primeira força é a conhecida Lei de Moore, enunciada por um dos fundadores da Intel, Gordon Moore. Existem várias formas de enunciar essa lei, mas a sua compreensão mais simples diz apenas o seguinte: em períodos curtos, de no máximo 18 meses, a tecnologia da informação vem sempre apresentando ganhos exponenciais em alguma dimensão importante. Ou seja, a cada dezoito meses, alguma grande melhoria tecnológica sempre acontece: duplicação da capacidade de processamento, duplicação da capacidade de armazenamento, duplicação da eficiência energética ou duplicação da velocidade de transmissão de dados. E isso vem ocorrendo sistematicamente há praticamente 50 anos!

Agora imagine qualquer outra tecnologia que apresentasse esse tipo de melhoria exponencial durante 50 anos! Imagine um carro nessas condições! Como ele seria hoje? O motor seria do tamanho de um alfinete? Um litro de gasolina seria suficiente para rodar com o carro o ano inteiro?

Vejam que a palavra chave aqui é o crescimento exponencial: nosso cérebro não consegue compreender bem esse tipo de crescimento e suas consequências. O fato é que hoje a tecnologia está poderosíssima, sob diferentes perspectivas, e extremamente acessível, o que torna as possibilidades de utilização ilimitadas.

Mas todos esses dispositivos, por mais poderosos que fossem, não alcançariam seu potencial pleno se não pudessem se alimentar de seu principal insumo: a informação. E é justamente a informação, sob a forma digitalizada, que é a segunda força que vem moldando a nova era.

A digitalização é simplesmente a transformação de qualquer informação em sequências de “0” e “1” que podem ser interpretadas pelos diversos dispositivos computacionais. Isso também não é novo e também não parece tão poderoso, certo?

Mas pensemos bem: a informação digitalizada possui duas importantes características que permitem que elas inundem todos dispositivos computacionais com quaisquer informações que sejam necessárias. Primeira: o custo marginal de transmissão das informações é praticamente zero, ou seja, uma vez que a informação tenha sido digitalizada, é facilmente difundida para onde for necessário. Segunda: as informações digitalizadas podem ser replicadas de forma exata e cada réplica não rivaliza com a outra informação existente. O uso de um informação em um lugar não a “gasta”, a mesma informação pode ser usada em outro lugar sem nenhum problema!

Imagine agora o cenário: temos milhões, bilhões de dispositivos poderosíssimos, que podem ser alimentados, a baixo custo, virtualmente por qualquer informação que lhes seja útil, independentemente de onde ela tenha sido gerada!

Imagine as combinações que são possíveis a partir disso… e chegamos então, à terceira grande força, que tira proveito de toda riqueza exposta anteriormente: a inovação por combinação!

A forma mais fácil de explicar a inovação por combinação é com um exemplo. Analisemos o aplicativo Waze – ele é resultado de uma combinação de GPSs com informações sobre vias, alimentadas via redes sociais, aliadas a um dispositivo que tem capacidade de exibir mapas em tempo real. O Waze teve que inventar algumas dessas tecnologias? O GPS? Os dispositivos móveis? A capacidade de processamento necessária para traçar mapas?

É claro que o Waze não inventou nada disso – ele combinou diversas tecnologias em uma ideia inovadora, mas só pôde fazer isso por causa das forças descritas anteriormente – a Lei de Moore que permitiu que dispositivos poderosíssimos ficassem tão baratos que pudessem ser adquiridos por bilhões de cidadãos e a digitalização, que permitiu que as informações necessárias para mapear o trânsito em cada local fossem obtidas e transmitidas com extrema facilidade.

A resposta à pergunta que fizemos há alguns parágrafos  – por que isso está acontecendo agora – é essa: porque agora estamos assistindo a uma explosão de inovações por combinação, habilitadas pelo aperfeiçoamento exponencial da tecnologia e pela inundação da informação digital.

Ainda assim, como dissemos anteriormente, é extremamente difícil prever exatamente o que acontecerá. Que tipo de inovação disruptiva está para surgir?

No entanto, é possível pensar em comportamentos que aumentam as chances de sucesso nesse novo ambiente.

Do ponto de vista das organizações, fica claro que elas não podem menosprezar essas forças – devem também, de alguma forma, ingressar nesse universo de inovações por combinação. Devem interagir mais com diferentes tipos de stakeholders, sejam eles clientes, comunidade ou de negócios diferentes. Também devem ficar expostas à possibilidade de poderem inovar por combinação. E, internamente, devem disseminar uma cultura que permita experimentação, que não puna o erro e que valorize o aprendizado rápido.

Do ponto de vista pessoal, de cada trabalhador, fica claro que atividades rotineiras, sejam elas cognitivas ou manuais, estão com os dias contados. Um trabalhador não terá condições de competir com as máquinas inteligentes no desempenho da rotina. Por outro lado, um trabalhador adicionará mais valor do que atualmente se atuar de forma complementar às máquinas inteligentes (e leia-se aqui não apenas robôs, mas também assistentes inteligentes, como Google Now ou Siri), conectando informações e criando inovações com a capacidade ímpar de nosso cérebro – pelo menos por enquanto!

*“The Second Machine Age: Work, Progress, and Prosperity in a Time of Brilliant Technologies”, de  Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee – artigo inspirado no livro.
Por: Marcelo Szuster, CEO da DTI Sistemas
Revisão: Jéssica Saliba. 

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